I- Experiência de implantação do programa de Planejamento Familiar na Unidade Sanitária de Itajaí, SC (1988).

Este trabalho foi apresentado na "I REUNIÃO DA ANEEPF", em Valinhos - SP, em outubro de 1989. É de autoria de Arlete Terezinha B. Soprano, enfermeira sanitarista da U.S.I e professora da Escolade Enfermagem da UNIVAÏ.
O serviço de Planejamento Familiar (SPF), foi implantado em Itajaí devido ao recebimento de material da Secretaria Estadual de Saúde e por haver a disponibilidade de um enfermeiro profissional com treinamento específico em Planejamento Familiar.

Após larga divulgação e trabalho educativo, o serviço recebeu um considerável número de mulheres provenientes de outros Postos de Saúde do Município, encaminhadas por médicos e enfermeiras da região e da Maternidade (campo de estágio da Escola de Enfermagem da Universidade do Vale do Itajaí - UNIVAÍ). O SPF procurou oferecer às mulheres uma consulta ginecológica individual.

A primeira consulta, com duração média de 40 minutos, constou de anamnese, exame físico geral, exame ginecológico, coleta de material colpocitológico e de exame de mamas.

Além de uma explanação sobre todos os métodos contraceptivos preconizados pelo SPF procurou-se mostrar as vantagens e desvantagens de cada um. A opção pelo método pode ser tomada na primeira consulta ou em consultas subsequentes.

As clientes deveriam retornar ao serviço para acompa-nhamento periódico de acordo com o método escolhido por ela. O método contraceptivo utilizado pelas clientes antes de conhecerem o SPF da Unidade Sanitária era basicamente o anticoncepcional oral embora a grande maioria dessas mulheres relatassem algum tipo de desconforto com o uso deste método, o que leva à escolha de outra opção . Da população estudada 3,9% usavam outros métodos, no caso, coito interrompido.

O anticoncepcional oral apresentou uma queda na preferência ,ou seja, 29,41% em contraposição aos 96,1% observados. Estes dados demonstram uma mudança significativa de comportamento das mulheres frente ao método de anticoncepção.

É interessante questionar acerca do comportamento referido pelas mulheres em relação ao uso da pílula. Cabe ressaltar que as mulheres após os esclarecimentos recebidos na consulta de enfermagem sobre as vantagens e desvantagens do anticoncepcional oral, mudaram para outras formas de anticoncepção. Uma das principais razões para essa mudança foi devido aos efeitos colaterais por ela verificados.

As mulheres assistidas pelo SPF apresentaram pequeno número de filhos e isto mostra a preocupação das mesmas frente à anticoncepção, pois independentemente disso, a opção pelos métodos contraceptivos recai sobre o diafrgma em 41,1 e . 41,18%. Este dado retrata a preocupação da mulher em escolher um método reversível e inócuo que lhe garanta espaçar suas gestações.

Em vista do trabalho realizado com as clientes que buscaram os métodos contraceptivos concluiu-se que:

  • O enfermeiro ocupa um importante papel dentro de planejamento familiar, e educador como prestador de serviços ;
  • O trabalho está apenas começando e tende a se estender a cada dia, portanto esta tarefa deve ser abraçada por uma equipe multidisciplinar;
  • Houve uma aceitação consideravelmente boa por parte das clientes em relação à assistência a ser prestada somente por enfermeiro;
  • Os métodos contraceptivos devem ser divulgados de forma ampla visto que muitas mulheres os desconhecem. 18.

II- Uma experiência no interior do Nordeste ( 1995)

Estudo realizado por Dra. Ana Lúcia Cavalcante e Maria Helena Bottona.
Este é o resultado de trabalho realizado no Centro de Saúde da Fundação Nacional de Saúde em Camocim no Ceará, cidade litorânea, situada a 376 Km ao norte de Fortaleza. A economia local é baseada na pesca, sal e castanha de cajú. Observou-se baixa escolaridade da população em geral, como na maioria das pequenas cidades nordestinas do Brasil.

A realização de uma reunião semanal com oferta de todos os métodos contraceptivos mostrou ao final de algum tempo que o número de mulheres que optavam pelo diafragma era significativo entre a clientela que procurava o serviço. Na prática diária, observou-se que o método apresentava boa eficácia. Foram identificadas no registro da unidade 238 mulheres que receberam consulta e prescrição do diafragma após a rea-lização do trabalho educativo. Foram contatadas para a entrevista 104 mulheres com renda familiar assim distribuída: menos de 1 salário mínimo (s.m.) 32,2%; 1 a 2 s.m. 35,4%; 3 a 4 s.m. 16,6%; mais de 4 s.m. 15,6%; ignorado 5,2%.
Fizeram uso de algum método associado 36,5% das mulheres e destas 92,5% utilizaram a geléia espermicida que chegava ao serviço de forma irregular em apenas durante os 08 primeiros meses de implantação do serviço.
O resultado encontrado para o quesito aprendizado foi: fácil 75,9%; difícil 6,7%; médio 18,4%. O tempo médio gasto pelo profissional de saúde para o repasse às mulheres foi de 10 minutos.

Apesar de ser no interior do Nordeste, a aceitação do parceiro foi inesperada: 52,8% consideraram boa e 10,5% consideraram má; porém 27,8 não tinham conhecimento do uso do diafragma pela companheira. Como causa de abandono o parceiro compareceu com 2,8%. Por causa médica, o abandono foi de 3,8% (3 infecções urinárias e 1 corrimento).

Observando-se os dados, podemos concluir que a mulher de baixa renda, que vive em condições precárias de moradia e saneamento, pode sim, escolher e ser usuária do diafragma. Nesta pesquisa o diafragma foi considerado de fácil manejo pela maioria das usuárias, ao mesmo tempo em que demonstrou uma eficácia (97,12%) semelhante àquela encontrada em outros grupos de mulheres.

A questão da dificuldade dos serviços públicos de saúde em relação aos recursos humanos a oferta e manutenção da geléia também pode ser desmistificada. Uma vez que se faça uma reunião de orientação anterior sobre os vários métodos contraceptivos com o grupo de mulheres, o tempo gasto para o repasse é muito pequeno, como foi demonstrado. A ausência da geléia, apesar de ter sido fator de abandono para algumas usuárias,para outras não o foi, continuado o seu uso ao que parece não ter influenciado na eficácia do método.
Acreditamos que se houvesse um seguimento do atendimento à mu-lher , após a prescrição do diafragma, diminuiria o percentual de gravidez por falha da mulher no primeiro ano de uso.
Esperamos que esta vivência em uma pequena cidade do nordeste brasileiro possa servir como estímulo para outros serviços públicos de saúde e que as mulheres que os freqüentam tenham acesso à informação e ao método que escolherem para o controle de sua fertilidade, sem preconceitos por parte dos profissionais da área e dos responsáveis pelas políticas de contracepção do País.

III - Pesquisa realizada entre mulheres de áreas rurais de Abadiânia e Ceres - Goiás

Trabalho financiado pelo Programa de Estudos sobre Direitos Reprodutivos da Fundação Carlos Chagas (PRODIR/FCC), e com a colaboração da Dra. Lívia Martins Carneiro, no período de 1985 a 1994.
Esse estudo teve como objetivo introduzir e acompanhar o uso do diafragma entre mulheres nas áreas rurais em dois Serviços de Saúde localizados nos municípios de Abadiânia e Ceres, no interior de Goiás, bem como identificar as variáveis relacionadas à aderência ao método.

Baseado em dados coletados das fichas de atendimento e entrevistas semi-abertas, foi feito um levantamento das pacientes traçando-se o perfil das usuárias.

Em um universo de 108 mulheres, sendo 48 de Abadiânia e 60 de Ceres, em grande parte desta amostra 94% eram adultas jovens com idades abaixo de 35 anos e renda familiar até 2 salários mínimos.

Todas essas mulheres já tinham experimentado em média dois métodos contraceptivos cada uma, sendo que o método mais utilizado foi o anticoncepcional oral, seguido pelo preservativo masculino e coito interrompido.
No decorrer da pesquisa procurou-se através do serviço de Orientação em Planejamento Familiar, contextualizado no PAISM (Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher), enfatizar o uso do diafragma.
Ao ser apresentado 2,3% em Abadiânia e 2,2% em Ceres, optoram pelo método e tiveram acesso a ele no serviço. Destas 51,6% das optaram pelo uso contínuo no período de 01 ano. A média do tempo de uso por mulher no geral foi de 1,83 anos.

Esta aceitabilidade contradiz as alegações de baixa eficácia e dificuldade no manuseio, "razões alegadas pela maioria dos profis-sionais de Saúde para preterir a oferta do diafragma".

Verificou-se também que 14,8% das mulheres nunca havia interrompido o uso do método, sendo que a "maioria das entre-vistadas vinha usando continuamente há mais de 04 anos".

Observou-se que após a apresentação do diafragma a opção pelo anticoncepcional oral e coito interrompido caiu sensivelmente. O maior número de interrupção no uso , cerca de 28,7% ocorreu pelo desejo de engravidar; 13,9% interromperam o uso por queixas clínicas e 12% por objeções pessoais,8% parecem em razões relacionadas ao serviço e outros.

Estes dados nos levam a afirmar que a educação em saúde continuada, a oferta de todos os métodos contraceptivos e o respeito às opções da mulher abrem um leque de escolhas e o diversifica em direção da eficácia. "No final desses 10 anos de estudo haviam 09 mulheres nulíparas e uma média de 2,2 filhos vivos por mulher".

Houve aderência e satisfação das usuárias, caracterizadas pelo tempo de uso e retorno ao uso. Estas mulheres rurais, jovens, brancas ou pardas, católicas, de baixa escolaridade, pobres, mais de 10% delas nuligestas e as demais com em média com 2,2 filhos nascidos, usaram com boa aderência e com eficácia maior que a da pílula no nordeste brasileiro. Não tiveram dificuldade maior no aprendizado e o introjetaram culturalmente. "Eu vim consultar para colocar a cumbuquinha"... . Aí está uma fala de mulher que renomeia o diafragma incorporando-o à sua vida como uma alternativa de prática contraceptiva. (in: SAÚDE, SEXUALIDADE E REPRODUÇÃO - Compartilhando Responsabilidades; FAPERJ/UERJ; 1997; p. 9 -29).

IV - Avaliação do uso do Diafragma por pacientes do Hospital das Clínicas em São Paulo Coordenado pela Profa. M. Luisa Eluf.

De agosto de1995 a novembro de 1996 o setor de Plane-jamento Familiar do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (H. C. FMUSP) ofereceu o dia-fragma de silicone para pacientes do Ambulatório de Ginecologia como opção de contracepção. Todas as terças-feiras das 10:00 às 12:00hs um dos consultórios do ambulatório era utilizado para apresentar o diafragma às mulheres.

Em grupo de duas a cinco, as mulheres recebiam noções sobre o corpo feminino, o aparelho genito urinário, a colocação e medição do diafragma, através dos modelos pélvicos de acrílico e de borracha.

Para uma primeira avaliação da adaptação do diafragma à vagina, o toque era feito com a mulher em pé, apalpando apenas a porção anterior do diafragma medidor e sua relação com a curvatura interna da sínfise púbica.

Mais confortável e menos constrangedor , esta forma de tocar , pode agilizar o atendimento sem prejudicar a sua qualidade.

Escolhido o número do diafragma, o toque era feito na mesa ginecológica para avaliação mais apurada do dispositivo na vagina. As pacientes também foram estimuladas a tocarem o seu próprio colo, revestido com o diafragma.

A cada encontro surgiam "casos novos"e "retornos". Todas eram atendidas no mesmo consultório e ao mesmo tempo, o que promovia trocas de experiências entre as pacientes. O ambiente era sempre alegre e as pacientes eram tratadas com atenção, respeito e paciência.
As pacientes foram atendidas pela Profª. Maria Luísa Eluf e por um ou dois médicos residentes em gineco obstetricia.

No início dos trabalhos, os dados foram anotados no prontuário do H. C. FMUSP. e com o tempo foram preparados modelos de questionários até chegarmos a um protocolo definitivo constituído de duas partes:

  1. Primeira consulta: com dados sobre a idade, paridade, escolaridade, dados sobre o parceiro, os antecedentes mórbidos, exame físico geral e ginecológico, medida do diafrag- ma, etc.
  2. Retorno: com perguntas sobre a aceitação do diafragma, se houve ocorrência de problemas após o uso, com especial aten- ção para infecção urinária, se o parceiro sentiu, se a mulher confiou no método entre outras.

Selecionamos alguns ítens deste questionário com o intuito de avaliar o perfil das mulheres: a eficiência do método (índice de Pearl),os efeitos colaterais, a confiança no método, o motivo da interrupção e o motivo de falta ao retorno.

As pacientes recebiam diafragmas e geléias. O primeiro retorno era marcado após sete a quinze dias de acordo com as possibilidades das mulheres. A partir daí os retornos eram mais espaçados e nem sempre eram padronizados como em outros trabalhos (uma semana, um mês, três meses, seis meses). A ênfase dada era no compromisso da mulher em retornar , porém muitas não vieram em todos os retornos profissionais, pessoais ou por ausência de queixa.

Assim, para conseguir as informações necessárias especialmente tempo de uso, utilizamos as fichas de retorno. As entrevistas foram marcadas por carta e telefone e realizadas por telefone ou no hospital. A captação de todos os dados foram feitos pela mesma pessoa.

Perfil das pacientes

As pacientes do Ambulatório de Ginecologia HC.SP. quando interessadas no planejamento familiar recebem uma aula sobre os diferentes métodos anticoncepcionais e são encaminhadas para o uso do diafragma, àquelas que optaram pelo método, ou as que aguardavam o DIU, as que estavam amamentando (06 semanas após o parto) e as que tinham contra-indicação a outros métodos.

Em 16 meses, 70 mulheres foram triadas para o uso do diafragma e conseguimos os dados mais importantes com 39 mulheres (55,7%).

As mulheres pesquisadas tinham entre 18 a 53 anos, sendo que aquelas entre 20 e 30 anos, formaram o maior grupo (20 mulheres).

As pacientes do Planejamento Familiar eram mulheres de um ambulatório de referência , assim, os antecedentes mórbidos são muito ricos: 48,7%, já tiveram ITU (19 pacientes) em algum momento; 56,4% (22 pacientes) já apresentou corrimento; 30,7% (12 pacientes) já tiveram leucorréia e ITU; 15,3% (06 pacientes) já trataram de dispareunia; 7,7% (03 pacientes) apresentavam MIPA; 17,9% (07 pacientes) tinham varizes; 20,5% (08 pacientes) apresentavam HAS e mais 20,5% com alergias diversas (haviam diferentes combinações entre essas patologias).

Encontramos também patologias mais graves (38% do total de pacientes). É interessante notar que a aceitação do diafragma foi boa entre essas mulheres (60%). Haviam apenas duas mulheres (5,1%) saudáveis e sem queixas clínicas.

Três pacientes interromperam o uso por estarem sem parceiro.
Dentre as 39 mulheres tivemos dois casos de gravidez, sendo que uma delas não usou o dispostivo na relação sexual e a outra não se tocava após colocá-lo, nem havia realizado o 1º retorno.

Os fatores mais importantes que interferem na efetividade do método são a motivação do casal para evitar a gravidez e o uso correto do diafragma. Pensando em uso correto, devemos admitir o papel da paciente e dos orientadores.

Existe um espectro entre dois pólos, das mulheres que se adaptam ao método e o das mulheres que não se adaptam. Esse espectro envolve diferentes graus de dificuldade e esforço para finalmente continuar o uso.

V - Nova avaliação do uso do Diafragma por paciente do Hospital das Clínicas de São Paulo. Autores: Burgos,R.M; Mello,N.R.; Pompei,L.M.; Saciloto, M.T.J.; Eluf.M.L.; Pinotti,J.A.

Objetivos: avaliar a aderência , eficácia e aceitabilidade do uso do diafragma de silicone por pacientes do H. C. realizado no período de dezembro de 1996 a junho de 1999.Foram analisados 44 casos, entre um universo de mais de 120 mulheres atendidas e usuárias do diafragma. Destas, apenas 04 declararam não gostar do método, sentindo pequeno desconforto e sintomas urinários.

No período médio de dois anos e meio de uso do método, ocorreram apenas duas gestações não programadas, pois as pacientes declararam que deixaram de usar o método durante a relação.
Portanto, o índice de falha deste estudo foi de 1,61 por 100 mulheres/ano. A maioria (80%) usou espermicida sendo que algumas de forma descontinuada.

A inserção ocorreu entre 5 e 180 minutos antes da relação e a retirada entre 06 e 18 horas depois do coito.
Este estudo revelou a importância do vínculo da paciente com o Serviço de Saúde e do seguimento do método pelo menos durante o primeiro ano de uso.

A aceitabilidade da paciente e do parceiro foi elevada. Portanto, o diafragma mostrou-se eficaz quando bem orientado e acompanhado pelo profissional da saúde.

VI - Pesquisa realizada pela Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro no período de 1992 a 1996.

Este levantamento foi realizado pela Secretaria Municipal do Rio de Janeiro entre as usuárias dos vários métodos contraceptivos atendidas na rede municipal de saúde.

A introdução do diafragma foi realizada após treinamento oferecido aos profissionais de saúde. Observou-se que o treinamento e a sensibilidade destes profissionais, resultou em um maior índice de aceitabilidade ao diafragma.
A taxa de escolha e uso do diafragma foi de 09 a 16%, entre os outros métodos contraceptivos disponibilizados

Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro
Secretaria Municipal de Saúde
Superintendência de Saúde Coletiva
Coordenação de Programas de Atendimento Integral à Saúde
Gerência de Programas de Saúde da Mulher

Uso de anticoncepcionais, por número de mulheres atendidas em Unidades da Secretaria Municipal de Saúde de programas de Saúde da Mulher

 
1992
43 unidades
1993
49 unidades
1992 e 1993
método
nº de mulheres
%
nº de mulheres
%
nº de mulheres
%
Pílula
950
44,44
2,147
50,12
3,907
48,22
Condom
411
19,22
689
16,08
1,1
17,13
Diafragma
353
16,51
482
11,25
835
13
DIU
353
16,51
882
20,59
1,235
19,23
Espermicida
38
1,78
47
1,1
85
1,32
Métodos Naturais
33
1.54
37
0,86
70
1,1
TOTAL
2,138
100
4,284
100
6,422
100

Nesta pesquisa pode-se notar também a importância do acompanhamento das usuárias. Quando bem orientadas, a escolha e a adesão ao diafragma são bem maiores, além de reduzir o índice de falha pelo uso incorreto.

VII - Estudo do Curso de Mestrado em Sexologia da Universidade Gama Filho (UGF), realizado no 47º "Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia"( FEBRASGO/97), Coordenado pela Profa. Maria do Carmo Andrade Silva, Márcio Luiz Schiavo e M. Luisa Macedo de Araujo.

Apresentamos aqui, alguns trechos da pesquisa:

Pretende-se com esta pesquisa oferecer subsídios para uma eventual revisão dos critérios que definem as políticas de orientação sexual e atendimento anticonceptivo disponíveis à população brasileira.
Os pesquisadores julgam que este trabalho representa mais um esforço para gerar conhecimentos que possam ser aplicados para melhorar o "mix" de anticoncepcionais praticados no Brasil, que apresenta distorções e acaba por refletir-se nos níveis de qualidade dos programas oficiais e ou privados de planejamento familiar e saúde reprodutiva.

O núcleo de estudo tinha como objetivos principais conhecer a relação dos ginecologistas com o diafragma, que informações possuem sobre este método, onde e como receberam capacitação para a indicação do diafragma e os níveis de indicação do diafragma às mulheres, além do modo como eles interpretam os comportamentos, atitudes e práticas de suas clientes em relação a esse método, incluindo as dificuldades de uso.
Os métodos anticonceptivos mais prevalentes em todo o mundo são pela ordem: a esterilização feminina, pílula e DIU. A ligadura tubária predomina na América Latina e no Caribe.

Na Europa (20%), Ásia e região do Pacífico (19%) e, também, na América do Norte (21%), o método mais utilizado é o DIU. O condom é utilizado, como anticonceptivo, pelo máximo de 9% dos casais que praticam a anticoncepção, índice que se verifica na América do Norte e Ásia, sobretudo por sua elevada prevalência no Japão.

Os dados específicos sobre a prevalência do diafragma não se encontram disponíveis, incluindo-se nos dados sobre o uso de outros métodos.

No Brasil, especificamente, as pesquisas disponíveis incluem o diafragma no conjunto dos "métodos vaginais", que abrangem, além dele vários espermicidas (geléias, espumas e tabletes).

Observa-se que o "mix" de anticoncepcionais prevalente no Brasil é bastante inadequado. Com efeito, somando-se os percen-tuais de uso da pílula (20,7%) e da esterilização cirúrgica femini-na (40,1%), obtém-se quase 80% de toda a prática anticoncep-cional do País. É interessante notar que na década compreendida entre 1986 e 1996, a esterilização aumentou em cerca de 50% a proporção de usuárias, enquanto houve queda de 20%, aproxi-madamente no uso da pílula. Na verdade, o que mais chama a atenção, é o fato de que quase a metade das mulheres em idade fértil casada ou em união já está esterilizada e muitas delas tendo menos de 30 anos, dois ou menos filhos e um tempo de união inferior a 06 anos. Portanto, é grande o potencial de arrependimento.

Um aspecto importante, é a atitude de uma grande parcela dos ginecologistas e obstetras brasileiros em relação ao diafragma. Esta pesquisa demonstra que os médicos indicam o diafragma numa freqüência bastante baixa.
Nos últimos 12 meses, 40,3% dos médicos consultados não fizeram nenhuma indicação para o diafragma; 35,7% o indicou, apenas, de 01 a 05 vezes; 11,5% fizeram de 06 a 10 indicações; 4,8% fizeram de 11 a 19 indicações; e apenas 4% dos entrevistados mais de 20 indicações.

Em outro caso, entretanto, apenas 3,5% dos gineco-obstetras consultados elegem o diafragma em primeira indicação. A pílula ocupa um absoluto primeiro lugar, com 77% de todas as indicações. Os médicos apresentam motivos variados para a indicação do diafragma: em primeiro lugar, o indicam para mulheres que solicitam esse método anticonceptivo (51,7%); logo a seguir, para as mulheres que relatam ter facilidade na manipu-lação dos seus órgãos genitais (44,3%). Em terceiro lugar, o diafragma é indicado para as mulheres que os médicos julgam que se beneficiarão com esse método (43,3%). Em quarto lugar, quando há contra-indicações ao uso de outros métodos (40,2%), sendo a indicação feita por mero processo de exclusão. A seguir, faz-se a indicação para as mulheres que têm relações sexuais esporádicas (32,5%) e para aquelas que dizem não gostar de usar medicamen-tos (31,7%). Com percentagens bem menores, os profissionais entrevistados relataram indicações do diafragma para as adoles-centes e jovens (9,7%), e ainda para as mulheres em geral (8,7%).

Quanto aos critérios para a indicação do diafragma, requer uma reflexão: constatando-se contra-indicações à utilização de outros métodos (pílula, DIU ou o injetável) e não se indica o diafragma, haveria uma tendência à prática do controle da fecundidade ou planejamento familiar por meio da esterilização cirúrgica.

Será que os altos índices de prevalência desse procedimento, que é definitivo, não obedeceria a uma ideologia subjacente à prática médica, à qual leva o profissional de ginecologia e obstetrícia a optar por recursos anticonceptivos e definitivos, porém mais caros e lucrativos para ele e para as casas de saúde?
Quanto às dificuldades relatadas pelas clientes no uso do diafragma,segundo os ginecologistas e obstetras consultados, a colocação do método foi a principal delas, tendo obtido 69,5% de todas as respostas. Este fenômeno é, sem dúvida, de fácil compreensão. Sabe-se que a maioria das mulheres brasileiras, por motivos sócio-culturais, não manipulam seus genitais, não se tocam ,nem utilizam espelhos para olhar a vulva ou introduzem os dedos na vagina. Por essa razão, encontram dificuldades para colocar e retirar o diafragma. Ao lado desses problemas relacionados à colocação ou inserção, é interessante observar que a retirada do diafragma apresenta-se como a segunda dificuldade mais freqüente relatada pelas mulheres clientes dos profissionais entrevistados tendo somado 46% das respostas. Em terceiro lugar aparecem as "dificuldades em manipular os órgãos genitais" (38,2%). Evidentemente, esses três fatores estão intimamente relacionados, uma vez que não é possível a mulher inserir e ou retirar o diafragma sem manipular os seus genitais.

Entretanto, caberia questionar se com uma orientação adequada quanto aos procedimentos de colocação e retirada do diafragma, esses problemas não poderiam ser reduzidos em sua importância, e até mesmo, ajudando-se a superar as limitações socio culturais que muitas mulheres têm para manipular os seus genitais. A questão desse modo passa a ser outra: estariam os médicos habilitados a proporcionar tal orientação? A julgar pelo nível de capacitação específica relatada pela maioria dos entrevistados, conclui-se que não.

Os dados e informações levantados na pesquisa permitem inferir que existe um grande preconceito em relação ao uso do diafragma. Tal preconceito é sistematicamente realimentado pelas dificuldades que a maioria das mulheres encontram para lidar com um método anticonceptivo que necessita ser introduzido na vagina. Numa sociedade que sempre buscou reprimir as manifestações da sexualidade, os genitais passaram a ser considerados como área suja, impura e pecaminosa do corpo, o que impede que as mulheres os explorem com naturalidade. Ademais, a sociedade brasileira contemporânea tornou-se muito imediatista e com tendência a mascarar as dificuldades dos profissionais e das mulheres com a alegação de falta de praticidade do método e dificuldades de acesso ao mesmo, pois sua distribuição não se faz de maneira uniforme em todo o território nacional.

Observa-se entretanto que os médicos brasileiros têm uma falha em sua capacitação profissional, pois em sua maioria , não obtêm um treinamento adequado para lidar com este método, incluindo-se o aconselhamento e orientação adequados às suas possíveis usuárias.Certamente, a insuficiência ou inadequada capacitação do profissional médico, não se faz sentir, apenas, em relação ao uso do diafragma. Neste caso, contudo, descarta-se uma possibilidade de auxílio para as muitas mulheres , que se beneficiariam com o seu uso, sobretudo nos casos em que o uso de outros anticonceptivos é clinicamente contra-indicado.

Pode-se inferir que o preconceito em relação ao diafragma prevalece desde o médico até a suas clientes. Assim sendo, caso haja o interesse de incrementar o uso desse método anticonceptivo no País, haverá a necessidade de um trabalho educativo específico a ser desenvolvido de maneira sistemática e bem articulada. Só assim, será possível auxiliar tantas mulheres que desejam controlar sua fecundidade, quanto aos médicos que as assistem nesse processo a superar os mitos, crenças e atitudes prevalentes em relação ao diafragma."
Este trabalho foi publicado na Revista FEMINA (FEBRASGO) nº 4 / maio/1999.

VIII - "A aceitação do diafragma vaginal como método de aprazamento da gestação em mulheres cardiopatas"

Estudo realizado em São Paulo, no "Instituto Dante Pazanezzi de Cardiologia", pela equipe do Prof. Januário de Andrade, Chefe do Setor de Cardiopatia e Gravidez no IDPC, pela Profa. Dra. Ceci Mendes Carvalho Lopes, Ginecologista do Setor, Dra. Maria Dulce C. H. Nissan, Tsao K. Hsin e José Eduardo M. R. Sousa.
Observação: O diafragma utilizado foi o de silicone.

De março de 1995 a abril de 1996, 31 mulheres cardiopatas utilizaram o diafragma vaginal.
Suas idades variaram de 18 a 40 anos (média 26,12). Tinham de 0 a 04 gestações (média 1,6), e 27 delas viviam em união conjugal estável,28 tinham ciclos mentruais regulares.

Objetivos:
A proposta deste trabalho foi avaliar a aceitação do diafragma,como método contraceptivo por pacientes portadoras de cardiopatias e permitir a estas pacientes engravidar em momento mais conveniente dependendo de seu desejo de maternidade, mas também das condições ideais do controle da doença cardíaca.

Métodos:
O diafragma foi apresentado às pacientes cardiopatas que pretendiam adiar a gravidez, dependendo de suas condições familiares e do controle do seu estado de saúde.
O modo de uso foi esclarecido mostrando-se a elas como aplicá-lo e retirá-lo e ainda sobre as vantagens do uso concomitante de geléia espermicida.

Tanto o diafragma quanto a geléia foram oferecidos gratuitamente, solicitando-se o retorno em 30, 60 e 90 dias após. No primeiro retorno colhia-se material para exame de sedimento e cultura de urina sendo repetido nos retornos seguintes, caso houve-se queixa.
Em todas as entrevistas, cada paciente respondia a questões uniformes.

Resultados:
Observou-se que todas as pacientes desconheciam o método e aprenderam a utilizá-lo referindo estarem confiantes e sentindo-se confortáveis.
O diafragma foi bem aceito por todas as pacientes, tendo havido queixa do companheiro em apenas um caso.
Não houve ocorrência de efeitos colaterais ou infecções urinárias detectadas pelo controle laboratorial.

Conclusão:
O diafragma alcançou boa aceitação pelas pacientes não tendo apresentado efeitos indesejáveis, a não ser nas pacientes que desejavam engravidar, não houve falha do método.

PROTOCOLO DE UTILIZAÇÃODO DIAFRAGMA VAGINAL COMO MÉTODO DE PLANEJAMENTO FAMILIAR EM CARDIOPATAS

Autores: Prof. Dr. Januário de Andrade e Profa. Dra. Ceci Mendes de C. Lopes

O diafragma vaginal é um método de planejamento familiar que tem como principal vantagem o fato de ser utilizado localmente. Portanto, não interfere nas demais funções do organismo nem interage com drogas que possam estar sendo utilizadas pela mulher.

Sua eficácia anticoncepcional depende da forma como é utilizado, ou seja, deve ser adequado na medida, deve estar íntegro e bem posicionado na vagina, deve ser colocado antes da relação sexual e deve ser retirado algumas horas depois. O uso concomitante de geléia espermicida, como método asso-ciado pode aumentar a eficácia anticoncepcional.

O diafragma deverá ser apresentado à paciente, esclarecendo-a sobre seu uso e mecanismo de ação. A medida deverá ser feita pelo ginecologista, que ensinará a paciente a aplicá-lo. O diafragma de silicone e a geléia espermicida serão fornecidos gratuitamente.

Serão agendados retornos periódicos quando então a paciente responderá a questionário padronizado.
Nos retornos será oferecida nova dose de geléia adequada à frequência da atividade sexual da mulher.
Os resultados do estudo serão apresentados periodicamente, em eventos médicos e em publicações. [...]

Comentários:
O Planejamento Familiar na mulher cardiopata visa reduzir a morbimortalidade materno-fetal no ciclo gravídico-puerperal além de proporcionar aos casais o controle sobre sua fecundidade e planejamento do número de filhos conveniente à estrutura familiar".

Este estudo, realizado entre as mulheres que queiram adiar a gravidez, mostrou uma boa aceitabilidade do diafragma por parte daquelas que não conheciam este método anteriormente, não tendo interferido nas suas condições patológicas (Lopes et al.).

O diafragma como método de barreira nas cardiopatas, deve ser utilizado com orientação e garantia de seguimento para evitar as falhas recorrentes do período de adaptação ao método.

Os vários estudos mostram que o treinamento contínuo, reciclagem, e educação continuada para a equipe de saúde que acompanha as usuárias do diafragma é essencial para o sucesso e continuidade do uso.
Assim se forma o vínculo, adesão e aderência ao método conseguindo-se a efetividade esperada.


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