Anos 80: o diafragma.

No caso do diafragma, a consulta durava cerca de uma hora e incluía o aprendizado de várias etapas pela usuária, orientada por quem a atendia: o toque do colo do úterino e a identificação de sua localização; a inserção do diafragma; a checagem de que este fato estava cobrindo o colo; a diferença do toque do colo sem e com o dispositivo e a colocação do espermicida juntamente com ele, ou adicionalmente, quando necessário para uma nova relação. A necessidade da manutenção diafragma na vagina por pelo menos 8 horas; sua retirada e os cuidados higiênicos com o método. Independentemente de escolaridade, quase todas as usuárias saíam desta consulta completamente preparada para o uso do método.

Para quem atendia, a consulta incluía ainda medir e experimentar o tamanho correto do diafragma em função do comprimento e tônus da vagina da usuária, e orientá-la para a rotina de uso. Em geral, recomendávamos que a mulher usasse o diafragma por uma ou duas noites inteiras, incluindo a da véspera da consulta de retorno (em uma semana) para checar como a musculatura vaginal se acomodara. No período de uma semana até a "alta", a mulher não deveria ainda considerar o diafragma como seu método contraceptivo até conferir que estava tudo bem - o tamanho adequado, o colo coberto, as instruções seguidas corretamente. Neste período, deveria usar ainda outro contraceptivo por segurança. Outra recomendação que costumávamos fazer era a de que, na primeira relação usando o diafragma, não informasse o parceiro da novidade, para ver se ele perceberia espontaneamente. Em nossa experiência, os parceiros não percebem sua presença se não alertados para ela.
Naquela época, a demanda por diafragma atingiu o seu auge, constituindo entre 60% e 70% de todas as usuárias de métodos contraceptivos entre o final da década de 80 e início da de 90. Houve períodos em que a demanda era grande o suficiente para que o trabalho com o método fosse também feito através de um grupo educativo muito bem sucedido na informação inicial e na consulta de retorno. Isto se dava também pelo fato do Coletivo ser considerado um centro de referência para esse método, tendo recebido pacientes referidas por muitos outros serviços públicos ou privados e de consultórios de médicos que conheciam o trabalho.

A convite de profissionais sensíveis, naquele período oferecemos treinamento à rede pública para o uso do método, o que favoreceu sua disponibilidade em alguns serviços da rede estadual e municipal, onde foi incluído entre as opções disponíveis dentro do contexto do Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Paism). Estes treinamentos foram uma experiência muito rica, pois pudemos partilhar nossa prática com os profissionais que enfrentavam uma realidade completamente diferente da nossa, na realidade do serviço público de saúde, com usuárias de renda e escolaridade ainda mais baixa e muitas vezes em condições de trabalho bastante precárias, onde faltavam insumos, funcionários e motivação.

Um dos desdobramentos mais interessantes de nosso trabalho com o diafragma foi uma pesquisa colaborativa multicêntrica, realizada em parceria com a Clínica de Planejamento Familiar do Departamento de Tocoginecologia da Universidade de Campinas e com o Núcleo de Ginecologia e Reprodução Humana de Belo Horizonte. O Estudo constituiu na avaliação do uso do diafragma em três contexto brasileiros: o Coletivo, como uma ONG feminista, a clínica universitária e o serviço privado. Reuniu o acompanhamento de 670 usuárias do método para verificar sua aceitabilidade, efetividade e continuidade. O trabalho teve resultados surpreendentes: mostrou que nos três serviços, o diafragma bem orientado tem em nossa realidade uma eficácia prática comparável à do DIU e melhor do que a da pílula.

Além destes dados, que deixaram claro que o diafragma poderia ter um papel muito mais importante como opção contraceptiva segura no Brasil, uma das maiores surpresas foi que a melhor adesão, a melhor eficácia e as menores taxas de complicações ( que já eram bem baixas) foram as da clínica privada em Belo Horizonte, que utilizava uma prescrição diferente da nossa e do serviço universitário em três aspectos. Primeiro, as medidas do diafragma eram significativamente menores, ou sejam, arem medidos os diafragmas "mais folgados" em relação ao comprimento da vagina. Segundo, não era prescrito o espermicida. Terceiro, era recomendado seu uso contínuo e não apenas quando a relação sexual - ele era colocado pela mulher na vagina ao final da menstruação, retirado para ser lavado cada vez que tomasse banho e imediatamente reinserido, o que assegurava que estivesse no devido lugar a cada relação sexual, evitando assim o "planejamento" de sua inserção e a do espermicida.

Esta nova forma de prescrição do método se mostrou tão promissora que retomamos o estudo colaborativo para uma nova fase, agora prospectiva, comparando a eficácia do diafragma com e sem espermicida, com o uso contínuo ou "tradicional" e incluindo outros serviços de saúde.

 

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